No último dia 1º de Agosto, todos os recursos naturais que a Terra é capaz de fornecer foram esgotados e, agora, a humanidade terá que viver “no vermelho”, como uma espécie de dívida com o planeta. Ainda faltam cinco meses para o final do ano, mas a partir desta data o planeta não consegue regenerar mais os recursos sozinho.

Isso significa que até o final do ano, o ser humano viverá com um déficit ecológico, exaurindo estoques de recursos naturais com a sobrepesca e a extração exagerada de florestas, e emitindo mais dióxido de carbono na atmosfera do que os ecossistemas são capazes de absorver. Segundo a rede sem fins lucrativos Global Footprint Network, que calcula anualmente o Dia de Sobrecarga da Terra, atualmente precisamos de 1,7 planeta para sustentar todas as demandas da humanidade com os ecossistemas da Terra.

Para se ter uma ideia, em 1970 o Dia de Sobrecarga da Terra, foi registrado no dia 29 de dezembro, dois dias antes do final do ano. Ano passado a data fechou no dia 2 de agosto e em 2018 chegou um dia mais cedo.

 

Como é feito esse cálculo

O cálculo da data em que acabam os recursos necessários para viver de maneira sustentável por um ano, usa como base a biocapacidade do planeta – ou seja, o montante de recursos naturais disponíveis -, dividindo-a pelo montante de recursos que consumimos.

Brasil supera média mundial

Mas não são todos os países que devem ser igualmente culpados por exceder o orçamento natural da Terra. Países com renda elevada usam bem mais recursos por ano do que países mais pobres. O Catar, país mais rico do mundo em 2017, por exemplo, tem o maior consumo de recursos naturais da Terra e já chegou ao Dia da Sobrecarga em 2 de fevereiro deste ano.
Se toda a população mundial vivesse como as pessoas no país do Oriente Médio, seriam necessários mais de nove planetas para sustentar o estilo de vida da humanidade. Os Estados Unidos, sexto país da lista da data-limite, precisariam de quase cinco planetas.

Em comparação, se todos os seres humanos vivessem como as pessoas na Nigéria ou na Índia, só seria necessário pouco mais de meio planeta por ano. Todo o continente africano precisaria de 0,82 planeta. E, com o estilo médio de vida no Vietnã, usaríamos exatamente um planeta.

Naturalmente, esse cálculo não leva em conta as diferenças no interior de cada país. O Brasil, por exemplo, registrou o seu Dia de Sobrecarga da Terra no último dia 19/07 e usaria 1,83 planetas – o número mais alto da série histórica da Global Footprint Network, iniciada em 1961. A “pegada ecológica” do Brasil supera a média mundial.

Apesar disso, o país ainda é retratado como um “credor” de recursos naturais, já que a biocapacidade por pessoa supera a “pegada ecológica” (áreas biológicas produtivas necessárias para produzir tudo o que se consome) individual dos brasileiros, gerando uma reserva de biocapacidade (recursos disponíveis) por pessoa.

Porém, o país vem precisando de cada vez mais recursos naturais. Mesmo que a “pegada ecológica” dos brasileiros não tenha aumentado muito desde 1961 (um consumo de 2,41 hectares globais por pessoa, contra 3,08 em 2014, última data disponível), o montante de recursos disponíveis caiu de 22,78 hectares globais individuais para 8,85 no mesmo período.

Menos consumo, novo sistema econômico

Os alemães também vivem bem acima do nível sustentável, consumindo mais de três planetas por ano. Nesse contexto, seriam necessários quase dois planetas inteiros para absorver as emissões de carbono da Alemanha, devido ao alto consumo de combustíveis fósseis do país, como carvão.

Em todo o mundo, combustíveis fósseis são os principais responsáveis pelo excedente de recursos da humanidade. Na verdade, eles representam 60% da pegada ecológica da humanidade.
Se o consumo de carbono fosse cortado pela metade, o Dia da Sobrecarga da Terra ocorreria cerca de três meses depois. Uma redução expressiva das emissões de gases poluentes também é crucial para limitar o aquecimento global a um nível bem abaixo de 2ºC.

Mas, para operar essa mudança maciça, seria necessário repensar radicalmente os atuais padrões de consumo e o sistema econômico.

Emmanuel Tomaz, com informações do Terra.